3.4.10

O Pirata de Vladivostok


        Naquela noite eu bebia vodka em um pequeno bar cheio de tipos suspeitos, daqueles que ninguém gostaria de encontrar numa rua escura. Eu me perguntava por que mesmo tão longe de casa sempre acabava encontrando um ambiente como aquele para me entreter. Neste momento, a estreita porta foi escancarada e um homem alto e gordo entrou, olhou em volta e veio mancando sentar-se ao meu lado num pequeno banco de madeira junto ao balcão.

       - Rum, a garrafa... – disse o homem para o dono do bar, que o atendeu prontamente.
      
       O Homem tinha por volta dos cinqüenta anos, pele curtida de sol, cabelos longos grisalhos, barba recém feita e usava roupas um tanto incomuns: camisa branca, casaco preto, botas e um chapéu com 3 pontas. Ao ver que era observado disse:
      
       - Nikolaevich... pirata.
      
       - Frank... escritor. Você trabalha com programas, músicas, filmes?
      
       - Não, nada disso... com cargas de navio... ouro e jóias de preferência, pois são mais difíceis de serem rastreados e não estragam se precisarem ser enterrados. Pelo menos fazia isso até semana passada.
      
       - Foi demitido? – perguntei.
      
       Depois de uma enorme gargalhada o homem ficou pensativo, tomou um gole de rum e com um ar angustiado começou a contar a história.
      
       - Numa noite da semana passada estávamos no navio em alto mar nos divertindo, bebendo e conversando até que um antigo companheiro de viagens perguntou se quando eu ia dormir deixava minha barba por cima ou por baixo da coberta...
      
       Desta vez eu que comecei a rir, mas ele me fitou sério e continuou...
      
       - Na hora eu também achei uma pergunta despropositada, respondi qualquer gracejo e não dei importância... mas o fato é que quando deitei deixei a barba por baixo da coberta e não me senti confortável e o mesmo aconteceu quando a coloquei por cima...
      
        Depois destas últimas frases ele pegou o copo e a garrafa e bebeu mecanicamente três doses seguidas.
       

        - Naquela noite e nas seguintes eu não pude dormir. Assim que o navio chegou nessa cidade eu desembarquei, arrumei um quarto, fiz a barba e dormi por dois dias. Hoje levantei da cama, fiz a barba novamente, comi um ensopado e vim para cá.

        - Isso tudo por causa de uma barba?
 

        - Não pela barba, mas pelo que representava. Era um hábito inconsciente dormir com ela em cima ou embaixo da coberta, assim como me habituei a ser pirata e a beber...
 

         Ele me encarou com os olhos iluminados e disse:
 

        - Vou parar de beber!
 

        Tirou um saco do bolso do casaco, derramou o conteúdo sobre o balcão e saiu, deixando quatro moedas de ouro e a resposta para minha pergunta inicial.

4 comentários:

Игорь disse...

Salve Frank

Enfim voltou das férias e em grande estilo !!

Questões existenciais ...Preciso de uma dose de rum .

abraços

Frank Saiu disse...

Olá Игорь,

Questões existenciais são uma das bases do qseflog... As outras um dia descubro!

Abraço!

Throwing it all disse...

Ahh, como você escreve bem, e...como seus desenhos são legais!

\o/

Adorei o blog!

Frank Saiu disse...

Obrigado Alice! bj